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(AdvertĂȘncia: Esse texto Ă© uma continuação, se vocĂȘ estĂĄ lendo pela primeira vez, CLIQUE AQUI! e prossiga atĂ© aqui)
UMA IDEIA BRILHANTE
Nos dias seguintes, Laura trouxe todos os
seus pertences para o cubĂculo onde estava e passou a comer, a conversar com as
suas amigas e com o seu namorado ali, na frente de todos e, quando desligava
alguma chamada, explicava-lhes o contexto da conversa. Ao ver que as outras
começaram a fazer o mesmo, decidiu ir mais longe do que qualquer uma jå tinha
ido. Pediu que instalassem um banheiro com paredes de vidro e também improvisassem
uma cama. A partir daquele momento, moraria naquele lugar!
Seria ali onde dormiria, tomaria banho,
comeria, receberia os seus amigos e familiares... Afinal, quem teria coragem de
renunciar a todo e qualquer tipo de intimidade e passaria a viver todos os
momentos da sua vida em total exposição? Quem iria tão longe só para conseguir
atrair a atenção de estranhos e vender coisas que não servem pra nada?
Sua vida, a partir de entĂŁo,
transformara-se numa narrativa feita para vender anĂșncios com mĂșsicas bobas e
coreografias provocantes. Algumas colegas tentaram imitĂĄ-la, mas nenhuma teve
coragem de ir tĂŁo longe...
— Ei, de onde vocĂȘ tirou essa ideia de
fazer da sua prĂłpria vida um reality show? — perguntou a o candidata que
até pouco tempo estava no topo da seleção.
Era o Ășltimo dia. Os
cubĂculos estavam sendo desmontados e as candidatas estavam se vestindo. Depois
de quase uma semana, Laura finalmente iria voltar para casa. Ao ouvir aquelas
palavras, daquela que tinha sido sua maior rival, limitou-se a sorrir e a
devolver o que ela tinha lhe dito no outro dia:
— O segredo Ă© a alma do negĂłcio amiga, nĂŁo
lembra?
A estranha sorriu, vendo-a sair.
- Olha quanta petulĂąncia!
Ao pegar a mochila, a estranha notou que
estava aberta e viu o livro que se esquecera na outra noite. Pegou-o e viu um
bilhete onde dizia:
“Leitura muito instrutiva, sĂł que existe vocĂȘ se
esqueceu de uma coisa muito importante. Existe uma diferença entre saber e
saber como fazer... Ass: Laura”
— Hah! Vadia!
MUDANĂAS
— Laura... — disse a direção do shopping — vocĂȘ
foi selecionada!
— AH, MEU DEUS! — gritou ela com toda a
força dos seus pulmÔes. Ajoelhou-se e começou a chorar copiosamente. Era como
se toda a sua vida a tivesse levado para aquele momento. Ficou ali ajoelhada,
com o rosto no chão, chorando diante da administração do shopping e dos
representantes das marcas de anunciantes por alguns minutos. Aquilo deixou
todos ali meio alegres, meio constrangidos.
- Calma, calma – disse o gerente de
marketing do Shopping – entendemos sua empolgação, mas... vamos, vamos... deixa
eu te ajudar...
Finalmente Laura se ergueu, limpou as
lågrimas do rosto e, logo que ficou de pé, com as mãos juntas, saudou a cada um
dos homens dali dizendo: “ Obrigada! Obrigada!”
— Na verdade — disse o gerente de marketing
— somos nĂłs quem deverĂamos lhe agradecer. A sua iniciativa inspirou nossa
equipe para uma nova campanha que conseguimos aprovar nesta manhĂŁ com todos
aqui. E como vocĂȘ foi a grande idealizadora, querĂamos te convidar para ser a
garota-propaganda. A partir do prĂłximo mĂȘs, teremos a CASA DE VIDRO 24 HORAS!
Instalaremos cĂąmeras e transmitiremos vocĂȘ dentro da casa de vidro em tempo
real através das nossas redes sociais. Só que, a cada semana, a casa serå
tematizada com algo diferente, por exemplo: faz de conta que o tema desta
semana Ă© praia... entĂŁo, todos os dias vocĂȘ vai estar usando biquĂnis, tangas,
chapéus, óculos escuros, enfim... todos os produtos das nossas marcas
relacionadas ao tema, explorando situaçÔes de praia, etc. Podemos até colocar
uma mini-piscina e trazer outras garotas para fazer de conta que vocĂȘ estĂĄ na
praia com as amigas. Outro tema pode ser... um domingo na casa dos pais... Podemos
atĂ© trazer sua famĂlia... enfim...
— Nossa... — disse Laura com a voz
embargada — eu... nĂŁo sei nem o que dizer. VocĂȘs pegaram no conceito da minha
ideia e expandiram... quer dizer... eu nĂŁo sabia que a minha ideia podia se
tornar num negĂłcio tĂŁo importante...
— EntĂŁo... vocĂȘ aceita? Aceita viver na
nossa CASA DE VIDRO?
— Claro! Ă tudo com o que eu sempre sonhei!
— Ah, sim! Vamos colocar a casa de vidro
bem na vitrine da frente do shopping, para que todo mundo que passe pela rua
também possa te ver.
Durante trĂȘs meses, Laura viveu o sonho de ser A GAROTA DA CASA DE VIDRO. Interpretava situaçÔes artificiais numa existĂȘncia imaginĂĄria, interagindo com estranhos como se fossem seus amigos, fingindo estar numa vida perfeita, enquanto era observada vinte e quatro horas por dia, tanto pelas pessoas que eram seguidoras das redes do shopping, como do perfil da GAROTA DA CASA DE VIDRO.
Do lado de fora, pessoas amontoavam-se em
frente Ă vitrine. Todos queriam ver e acompanhar a histĂłria da GAROTA DA CASA
DE VIDRO.
Até que...
Quando ela percebeu que aquilo que estava fazendo também começou a influenciar outras garotas como ela?
Não sabia dizer ao certo. Tudo começou com
uma vaga impressão de que algumas pessoas que passavam por ela começavam a usar
os mesmos produtos que anunciava. Imediatamente, algo dentro dela lhe dizia aquelas
meninas prestavam atenção em seus comerciais e desejavam ser como ela, mas logo
recusou esse pensamento. Afinal, havia outras que também anunciavam as mesmas
marcas, poderia ser qualquer uma.
Foi quase sem querer que, algum tempo
depois de ter percebido aquilo, Laura notou o olhar daquela menina de dez anos
através do vidro. Tinha um rostinho redondo, bochechas salientes, cabelos
castanhos e cacheados. Os olhos da criança eram pequenos e o rostinho coberto
de sardas. Vestia uma blusa vermelha com linhas laterais brancas, dentro
de uma jardineira jeans.
O seu olhar era cheio de admiração. A
menina seguia-a com os olhos, absorvendo cada movimento, cada palavra, cada
objeto que ela mostrava, cada movimento da sua coreografia. Laura sabia muito
bem o que era aquele sentimento. Era o mesmo que ela tinha sentido da primeira
vez, quando viu a modelo da casa de vidro fazendo exatamente o que estava fazendo
agora. Laura ergueu os olhos e viu outras crianças, e garotas bem mais velhas,
algumas tinham mais ou menos a sua idade. Também tinham, homens, senhoras,
velhos, todos olhando o que ela fazia com aquele olhar de ĂȘxtase e admiração.
A multidĂŁo seguia seus movimentos como se
ela fosse uma atriz interpretando uma peça de teatro. Em pouco tempo, a
admiração deixou de ser apenas um olhar, mas aparecia em nĂșmeros de seguidores,
cifras de vendas e em centenas de milhares de seguidores que lhe escreviam
declaraçÔes de afeto nos comentårios das redes sociais.
“Meu Deus, eu nunca pensei que as coisas chegassem tĂŁo
longe em tĂŁo pouco tempo!”
Sim!
Ela era alguém que fazia a diferença na
vida das pessoas.
Uma mulher fazendo coisas medĂocres, que qualquer outra pessoa faz no seu dia a dia, com a diferença de que a histĂłria da sua vida nĂŁo era apenas sua, mas de todas aquelas pessoas. Parecia que tinha finalmente atingido o seu auge, mas era apenas o inĂcio de uma transformação que começara a ocorrer dentro dela, sem que ela mesma soubesse.
CONCLUI NA PRĂXIMA POSTAGEM...
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