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ESPANTO
Seu olhar, mal teve tempo de ver aquilo, ficou imediatamente impregnado de surpresa e alumbramento. Entretanto, tão logo seus olhos se depararam com aquela imagem, transeuntes começaram a parar diante dela, afastando-a cada vez mais daquela visão. Em pouco tempo, o que era um punhado de pessoas acumulava-se e espalhava-se concentradamente. Uma multidão começava a se formar enquanto ela ia se distanciando mais e mais da visão desejada.
As palpitações em seu peito aceleravam-se e
sentia crescer dentro de si a sensação de que algo precioso lhe estava sendo
tirado. Enquanto seus passos involuntariamente iam para trás, movendo-a para
mais distante daquela visão, mais ciente ela ia se tornando do quanto queria
ver a imagem outra vez.
Finalmente tomou coragem!
Adentrou na multidão e avançou, movendo-se com certa dificuldade para atravessar aquele pequeno mar de gente. A consciência do quão desejava estar próxima daquilo crescia à medida que os obstáculos iam surgindo e que ia deixando as boas maneiras de lado. Não sabia exatamente em que momento, mas, a certa altura, sua porção autoconsciente ficou em segundo plano e o desejo de avançar, de alcançar a borda da multidão, estando novamente à frente daquela visão, era a única coisa a ocupar seus pensamentos e a guiar seus passos. Houve então o momento em que se esquecera das “desculpas” e de pedir “com licença”, avançou direta e decididamente, indiferente aos comentários sobre sua falta de educação e falta de boas maneiras.
Não havia mais ninguém que se interpusesse
entre ela e aquela imagem. Apesar do alívio, sentia o coração palpitar ainda
mais, as mãos lhe tremiam e a mente experimentava um tipo de epifania, de
despertar. Havia em seus olhos uma expressão maravilhada, como se uma venda
houvesse sido retirada e pudesse agora ver com clareza.
“Meu Deus – pensava ela – é isso... sim, é isso!”
O cenário estava atrás de um cubículo de
vidro construído no hall do shopping center, logo depois da porta
principal, antes da escada rolante. Lá dentro, uma garota em um cenário
doméstico agia casualmente, como se estivesse em sua própria casa. A mulher naquele cubículo de vidro, entretanto, estava sendo
observada por centenas de pessoas, fingindo estar sozinha, falando consigo
mesma enquanto saía e entrava de um cômodo para o outro, todos separados por
paredes de vidro transparente.
Segurava os objetos que estavam à venda,
falando do quanto lhe eram úteis, informando os preços e as possibilidades de
descontos, como se fosse algo usual e não estivesse interessada em anunciá-los.
Havia microfones em todo o interior que transmitiam a voz da modelo e os ruídos
do interior daquilo que podia ser chamado de “casa de vidro”, através dos
alto-falantes que estavam do lado de fora, no topo das paredes.
Bem mobiliado, cheio de todas as coisas que
se poderia desejar numa casa, tanto em termos de necessidade quanto de estilo.
A modelo era uma garota recém-saída da adolescência, entre dezoito e vinte
anos. Tinha as feições delicadas, maçãs no rosto, o cabelo longo e louro e os
olhos castanhos que contrastavam com a pele delicada, coberta pela roupa casual
e ao mesmo tempo elegante. Mas ela não ficava sozinha por muito tempo! Logo
apareciam outras que interpretavam suas amigas, sua mãe, irmãs... haviam trazido
até um cachorro!
O que mais chamava a atenção não era apenas
o contraste de casualidade e elegância, que transmitia a sensação de estar
vendo, ao vivo, um comercial de margarina ou de pasta de dentes, mas o fato de
que as cenas eram sempre acompanhadas de uma música, cuja letra era o anúncio
do produto, e de uma coreografia. A vida ali era como um musical. Um alegre e
divertido musical feito de pequenos acontecimentos domésticos que eram
compartilhados por pessoas lindas, compreensivas, amigáveis, sempre alegres...
A garota que tanto lutara para ver aquela
imagem – e que se chamava Laura – estava totalmente imersa na cena da garota da
casa de vidro, quase como se fosse ela mesma quem estivesse ali. Tudo de
repente estava suspenso, como se nada mais existisse e como se aquele momento
pudesse durar uma eternidade.
No entanto...
CONTINUA...
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