📚 A GAROTA DA CASA DE VIDRO - PARTE 2

 

(AdvertĂȘncia: Esse texto Ă© uma continuação, se vocĂȘ estĂĄ lendo pela primeira vez, CLIQUE AQUI! e prossiga atĂ© aqui)

O INÍCIO DA JORNADA



Sentiu seu celular vibrar.

Olhou a mensagem de sua mĂŁe que dizia:

Não se esqueça de pagar o boleto. Se não pagar hoje vai ter multa!

Logo a mensagem a fez voltar Ă  realidade.

Estava no hall de entrada do shopping. A modelo ficava em um enorme espaço feito de vidro e aço. Do lado de fora, logo acima da entrada:

CASA DE VIDRO:

SUA VIDA EM UM LUGAR SÓ

A visĂŁo que tinha presenciado tinha lhe levado para um outro lugar, um limbo de sonho, uma realidade alĂ©m do seu real... uma outra vida. Era diferente e ao mesmo tempo familiar, porque aquela era a vida que acreditava sempre ter merecido!

Estava ali porque existia uma agĂȘncia lotĂ©rica no segundo piso, onde podia pagar suas contas sem que a fila demorasse muito. NĂŁo havia outro dinheiro na bolsa alĂ©m do que foi separado para fazer seus pagamentos. Uma soma que iria consumir quase a metade de seu ordenado. Com as despesas do supermercado, nĂŁo haveria muita coisa para comprar para si.

Caminhava pelo shopping apressada, repassando o que viria fazer ao longo do dia, calculando mentalmente o quanto lhe sobraria naquele mĂȘs e o que deseja comprar quando finalmente chegou a lotĂ©rica. Na fila relembrava a visĂŁo da garota da casa de vidro em sua memĂłria enquanto esperava na fila. 

Durante aquele pouco tempo, sentiu que nĂŁo era mais apenas a espectadora, mas a prĂłpria personagem. Concluiu que aquela modelo era uma pessoa privilegiada por levar outras pessoas Ă quele estado de espĂ­rito, e, por alguns momentos, dar-lhes a vida que sempre quiseram. 

A fila andava rapidamente e, sem que percebesse, jĂĄ era quase a sua vez. Olhava para  os rostos ao seu redor: eram inexpressivos, quase homogĂȘneos, como se nĂŁo tivessem uma fisionomia prĂłpria que lhes permitissem distinguir um do outro. Eram pessoas que passariam por suas vidas como se nĂŁo a tivessem vivido. NinguĂ©m lembraria delas, nem teriam feito nada que valesse a pena ter lembrado. Ao contrĂĄrio da menina da casa de vidro. Todos lembrariam dela pelo que ela deu a eles.

Um momento fora de suas existĂȘncias inĂșteis!

Um sabor do que a vida poderia ter sido...

Quando pagou a menina do guichĂȘ, foi tomada de uma certeza quase que absoluta de que aquilo que aquela modelo fazia era uma coisa divertida e, ao mesmo tempo, importante. Ela divertia-se fazendo aquelas coisas que todos gostariam de fazer, enquanto ganhava dinheiro com isso. Ao mesmo tempo, levava Ă s pessoas para um lugar onde tudo era possĂ­vel, construindo momentos de sonhos para elas.

Sim!

Era divertido!

Era lucrativo!

E importante!

Descia agora a escada rolante, atendendo à ligação de sua mãe, tranquilizando-a de que as contas jå estavam pagas!

JĂĄ estava na entrada, passando outra vez em frente Ă  casa de vidro, quando uma funcionĂĄria do shopping lhe entregou um panfleto dizendo:

“Seja vocĂȘ tambĂ©m uma garota da Casa de Vidro. Seleção para novas modelos neste final de semana. As inscritas concorrerĂŁo Ă  uma seleção, onde ficarĂŁo uma semana na casa de vidro, criando suas prĂłprias coreografias. Seja vocĂȘ a prĂłxima moradora da Casa de Vidro, ganhando...

A BUSCA



O prĂȘmio era uma boa quantia em dinheiro, mas nĂŁo era isso que realmente a interessava. O que realmente lhe fez brigar com sua mĂŁe, largar o emprego, voltar ao Shopping no dia seguinte para fazer sua inscrição e se comprometer a estar num cubĂ­culo de paredes de vidro, era o fato de ter uma chance de ser como aquela garota. De desfrutar daqueles momentos, mesmo que fossem de faz de conta... “inspirar” outras pessoas...

No final de semana ela se apresentou para a seleção.

A administração do concurso reservara um corredor no shopping onde tinha uma pequena galeria com dez cubĂ­culos de um lado e dez do outro. Ali, vinte garotas ficariam ali por quase doze horas, improvisando anĂșncios e coreografias com os produtos que o shopping trazia. Àquela que conseguisse maior nĂșmero de pessoas por mais tempo em sua vitrine seria a selecionada.

De inĂ­cio, Laura tentava ser educada, sorrindo e procurando estar sempre bem vestida e bem comportada. Fazia coreografias tĂ­midas, um pouco atrapalhadas, enquanto tentava lembrar-se do que a garota havia feito. Casualmente notou que as outras meninas ao seu lado e Ă  sua frente tambĂ©m se comportavam da mesma maneira. Logo percebeu que nem ela, nem as outras estavam atraindo muita atenção, ao contrĂĄrio de duas ou trĂȘs meninas que estavam nos fundos da galeria. Havia pouco tempo para comer e para trocar de roupa. Ficavam ali, das dez da manhĂŁ Ă s dez da noite, quando o shopping fechava. Foram dois dias sem atrair muitos olhares.

Aquele resultado a deixou desanimada, mas nĂŁo desistiu. Mudou para coreografias mais ousadas, escolheu roupas com cores mais chamativas...

Mas o resultado foi o mesmo!

NĂŁo deixou de reparar que as outras meninas tambĂ©m faziam a mesma coisa. Logo, chegou Ă  conclusĂŁo de que sua maneira de pensar nĂŁo era diferente das outras e que as pessoas ali logo se cansavam de vĂȘ-las fazerem tudo igual.

– É por isso que nĂŁo aparece tanta gente! – concluiu ela.

Decidiu apelar.

Começou a usar roupas mais provocantes, coreografias mais ousadas. Por uns dias pareceu ter dado certo, mas logo seus expectadores começaram a diminuir. As outras garotas, olhando o que ela estava fazendo, começaram a fazer a mesma coisa.

Laura sentiu dentro de si uma onda de frustração e impotĂȘncia. Parecia que o quer que pensasse em fazer, ou era a cĂłpia do que outra pessoa estava fazendo, ou era rapidamente copiada pelas outras meninas. Por mais que tentasse ser original, tudo terminava se tornando a mesma coisa.

“Como eu posso me destacar desse jeito?”


CONTINUA...

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